Luis Tosta/Unsplash

Crónica

Sonhar em voz alta: armazenar energia, com “geração” de água potável

Só quando as grandes empresas virem algum retorno em processos de dessalinização é que poderemos esperar que a água potável seja distribuída e chegue a todos os que precisam dela. Nesse campo, o Projecto Malta pode ser promissor

Texto de Hugo Salvado • 07/08/2017 - 16:47

Hugo Salvado fala português e "informatiquês", é engenheiro e vive na Parede

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Na semana passada, revi uma amiga dos tempos de universidade que já não via desde esses longínquos anos, uns 20-e-tal. Ela estudou Química e eu Electrotécnia, conhecemo-nos por via do desporto universitário, mas neste jantar o tema eram os “Cromitos”, um projecto de literacia digital – no âmbito do STEAM - em que estou envolvido há uns anos e pelo qual ela nos descobriu, pelo interesse que tem em fazer algo semelhante porque, tal como nós, também quer fazer, ensinar e aprender durante toda a vida.

 

Não há acasos. A conversa acabou em temas mais globais, como a disponibilização de água potável a todo o planeta. É um denominador comum entre as pessoas que têm interesses científicos ao mesmo tempo que se preocupam com temas de sustentabilidade à escala global. Em jeito de “teoria da conspiração”, acabei eu por dizer que só no dia em que as grandes empresas e corporações virem algum retorno em processos de dessalinização (variantes de destilação, por exemplo) é que poderemos esperar que a água potável seja distribuída e chegue a todos os que precisam dela.

 

Não há mesmo acasos. No dia seguinte, abri o meu RSS Feed e o primeiro título que li (mesmo!) é de um pequeno artigo da MIT Technology Review que aponta para o Projecto Malta da X, uma subsidiária da Google que aponta a resolver problemas globais com iniciativas/soluções revolucionárias, mesmo que estas tenham uma reduzida possibilidade de sucesso. Nota: a X já se chamou Google X e é o laboratório onde, por exemplo, foi desenvolvido o carro autónomo da Google.

 

O Projecto Malta visa fazer e conversão/separação de energias renováveis em calor e frio, armazenando o calor em tanques de sal líquido e o frio em líquido refrigerante (como o que é usado nos automóveis) e, quando necessário, fazer uma reconversão em electricidade. Como é possível fazer esse armazenamento por períodos que vão de dias a semanas, a necessidade de consumo imediato é menor e mais controlada do que os meios convencionais de produção eléctrica. 

 

Assim, duas das grandes virtudes do Projecto Malta seriam:

1) recurso a fontes energéticas sustentáveis (geração por via solar ou eólica);

2) como o armazenamento é feito por via térmica (em tanques de sal), um sub-produto pode ser a água dessalizinada, ou seja, potável.

 

Esta segunda é uma hipótese que precisa de apoios, dado que a quantidade de estações de dessalizinação é ainda muito reduzida à escala global e o processo não gera quantidades de água potável que sejam compatíveis com as necessidades de grandes populações. Em particular, no nosso país, não há uma única estação destas.

 

Tem de haver um estímulo, um interesse financeiro para que haja uma abordagem realista neste investimento. A própria X, em 2016, abandonou um projecto cientificamente viável para um combustível limpo, o Foghorn (à base de dióxido de carbono e hidrogénio da água dos oceanos), apenas porque a parte do “hidrogénio renovável” era incomportável financeiramente.

 

Há aqui uma dose de sonho? Há. Mas, como disse o Tony Robbins recentemente: “Os nossos sonhos são para ser dizimados… decisivo para o sucesso é quanto tempo demoramos a levantar-nos!”

 

Não há acasos, mesmo.

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