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Sustentabilidade

Há um carro eléctrico “vindo do espaço” a distribuir correio em Aveiro

Parceria entre os CTT — Correios de Portugal e a empresa nacional UOU Mobility levou para as ruas de Aveiro um carro eléctrico, silencioso e amigo do ambiente. “Há até quem diga que parece um Ovo Kinder”

Texto de Ana Maria Henriques • 13/07/2017 - 13:54

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Desde que começou a andar pelo centro de Aveiro com o novo veículo eléctrico UOU, o dia de trabalho de Paulo Lemos ganhou um outro ritmo. Carteiro há 23 anos, trocou o carrinho de distribuição de correspondência e encomendas pelo triciclo de capota vermelha e branca e agora é parado na rua por turistas e aveirenses à procura de uma fotografia. “O primeiro impacto foi muito engraçado”, conta ao P3 numa pausa da ronda matinal, em frente ao Mercado do Peixe daquela cidade. “As pessoas querem ver, fazem perguntas, querem saber se tem marcha-atrás”, brinca. “Há até quem diga que parece um Ovo Kinder.”

 

O UOU é um veículo eléctrico desenvolvido por Isa Silva e Hugo Teixeira, pensado para redes de partilha em ambiente urbano. Desde 5 de Julho que um destes veículos, adaptado, circula pelo centro de Aveiro para entrega de correio, num projecto-piloto único em parceria com os CTT — Correios de Portugal. Paulo Lemos deixou de transportar um carrinho de mão e passou a conduzir o UOU, redesenhado para responder às necessidades da empresa.

 

Ao contrário da versão original, este veículo silencioso tem espaço para apenas um ocupante — o condutor —, o lugar do passageiro foi ocupado por uma área de carga, onde Paulo Lemos acondiciona as encomendas mais volumosas, e foi introduzida uma pequena porta lateral de acesso à cabine, bem como uma cobertura opaca na zona traseira. “Cada vez temos menos cartas e mais pacotes volumosos para entregar”, justifica o responsável pela operação logística dos CTT, Paulo Alexandre Silva, o que por vezes obriga ao reabastecimento dos carrinhos de distribuição.

 

O carteiro pode, assim, levar o “serviço para toda a rota”, até um metro cúbico de carga. Quer isto dizer que o UOU tem capacidade para um máximo de 75 de quilogramas de carga, explica Isa Silva. A autonomia cresceu dos 40 para os 65 quilómetros, desde 2015 — culpa das baterias de lítio —, e a velocidade máxima atingida situa-se nos 45 quilómetros por hora. Isto porque o UOU transitou da categoria de velocípede eléctrico para triciclo eléctrico: já não pode circular em ciclovias, como inicialmente previsto pelos criadores.

 

“Cada vez mais as cidades estão a limitar o acesso de veículos de combustão aos seus centros”, continua Paulo Alexandre Silva, razão pela qual uma alternativa 100% eléctrica como o UOU pode ser encarada como uma solução empresarial, além de turística. A escolha de Aveiro como centro do projecto-piloto, explica, prende-se com as características da própria cidade, com muitas ruas de acesso condicionado, além da proximidade com São João da Madeira, onde a UOU Mobility está sedeada e onde o veículo é produzido.

 

O VEDUR (veículo eléctrico de distribuição urbana, na designação dos CTT) permitiu “a retirada de um carro do centro de Aveiro”, sublinha o responsável da empresa. “Se nos anos 90 eu imaginava que ia conduzir um carro assim...!”, vai dizendo Paulo Lemos, enquanto abre a cobertura do “carro vindo do espaço” que é o centro das atenções. “É um bom apoio”, admite, sobretudo por ser “intuitivo”, “maleável” e “muito fácil de conduzir”, tal como uma scooter. “Os reformados com quem me vou cruzando dizem-me que seria bom para eles, acham piada.”

 

16 cêntimos por dia

Quando todos os testes de percurso e autonomia estiverem completos, o VEDUR só precisará de ser carregado “de dois em dois dias”, garante Isa Silva, e numa tomada eléctrica convencional, durante quatro horas. O custo estimado, por dia, é de 16 cêntimos, o que ronda os quatro euros ao fim de um mês de cinco percursos por semana.

 

Das 390 viaturas menos poluentes que os perto de 5000 carteiros dos CTT utilizam na distribuição diária, o UOU é o único veículo eléctrico português. “É a maior frota eléctrica empresarial em Portugal”, assegura Paulo Alexandre Silva, entre carros, quadriciclos, triciclos, bicicletas e scooters. Entre 2008 e 2016, “as emissões de dióxido de carbono dos CTT baixaram 70%”. Além do investimento em viaturas menos poluentes, continua, os condutores dos CTT têm formação em “condução eco-defensiva”. Para já, o projecto-piloto com a empresa de Isa Silva e Hugo Teixeira “está a correr muito bem”. No futuro próximo, é provável que o piloto seja alargado a mais veículos, que podem vir a ter um atrelado acoplado para maior capacidade.

 

A UOU Mobility faz agora parte do grupo ERT — Innovation Effect e está sedeada no Centro de Inovação Criativa de São João da Madeira. Em fase de negociações estão parcerias com três autarquias para um novo produto eléctrico, a UOU Bike. Esta bicicleta com “design ergonómico, minimalista e robusto” foi também idealizada para redes de partilha urbana, num sistema que integra o carro eléctrico, docas inteligentes para parqueamento, um sistema integrado de informação virtual e uma aplicação móvel. Neste momento há quatro veículos a circular em São João da Madeira, nas rotas de turismo industrial da cidade.

 

A UOU Bike está em fase de produção, também naquela cidade industrial do distrito de Aveiro, e no início de Outubro deve estar à venda, por 1500 euros. A produção do modelo standard do triciclo eléctrico — com lugar para dois passageiros e capota transparente para uma visão de 360º — já está terminada e a previsão é de que esteja à venda a partir de 2018, ainda sem um preço definido.

 

Paulo Lemos vai continuar a viajar pelo centro de Aveiro com o UOU vermelho e branco, a sorrir às pessoas que apontam e o fotografam, entre comentários de espanto — e há um vídeo da página Aveiro Nosso [ver à esquerda] que já ultrapassou as 800.000 visualizações. “Quero um destes para ir para o trabalho”, ouviu-se uma turista a dizer, em língua inglesa, ao mesmo tempo que o filmava. “Adoro!”

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