Alessandro Bianchi/Reuters

Investigação

Cientistas portugueses descobrem fungo que “come” microplásticos

Todos os anos são despejados cinco a 13 milhões de toneladas de plásticos nos oceanos — e cada um pode demorar 100 a 400 anos a deteriorar-se. A menos que seja "comido", muito mais rapidamente, por um fungo descoberto por uma equipa da Universidade de Aveiro

Texto de Ana Maria Henriques • 28/06/2017 - 09:43

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Chama-se Zalerion maritimum e é um fungo com particular gosto por madeira e microplásticos. Vive na costa portuguesa, assim como noutras zonas, e pode ser uma solução para pôr fim aos microplásticos que poluem os oceanos e se propagam pela cadeia alimentar, como defende um grupo de cientistas portugueses num artigo publicado recentemente na Science of the Total Environment.

 

“Sabíamos que este fungo era constantemente encontrado no oceano a degradar madeira, que tem celulose, um polímero”, começa por explicar Teresa Santos, da Universidade de Aveiro (UA). “Por aproximação, achámos que, se era capaz de degradar celulose, também seria capaz de degradar o polietileno, o polímero presente, por exemplo, em sacos plásticos.”

 

Actualmente, diz a investigadora, “a maioria das pessoas está dedicada a fazer monitorização dos microplásticos — algo muito necessário porque temos que saber quanto e onde existe”. O aproveitamento do Zalerion maritimum para a terminação destes resíduos poluentes enquadra-se no conceito de biorremediação, “a utilização de micro-organismos vivos para, neste caso concreto, degradar o plástico”. Um artigo publicado, em Abril, na revista Current Biology

 

“É uma solução muito interessante porque é amiga do ambiente, não utiliza outros produtos químicos e tem custos muito reduzidos”, resume Teresa Santos. O fungo em questão “não é propriamente uma espécie estranha ao oceano”, diz — o que não significa que possa ser produzido em massa e introduzido no ecossistema sem critério. “Só o podemos introduzir em ambientes controlados, sempre”, sublinha. A ideia desta estratégia de biorremediação é “criar uma zona controlada” — à semelhança das zonas de aquacultura —, na qual são colocados os microplásticos e introduzidos os fungos.

 

Entre 100 a 400 anos é quanto o plástico pode demorar a deteriorar-se, aponta a cientista. “Um copo de plástico demora entre 200 a 400 anos, uma tampa de garrafa entre 100 e 400 e uma garrafa pode ultrapassar os 500 anos”, revela. E a produção anual de plásticos supera os 300 milhões de toneladas. “Estamos aqui a oferecer uma solução que propõe uma degradação de microplásticos entre sete e 14 dias.” Estima-se que todos os anos sejam despejados entre cinco e 13 milhões de toneladas de plásticos para os oceanos

 

Reciclagem não é suficiente

“O que acontece hoje em dia é que, apesar da reciclagem, continuamos a ter imenso plástico a depositar-se nos oceanos. O que se tem feito é apanhar esse plástico e depositá-lo nos aterros sanitários, onde demora os tais 100 a 500 anos [a degradar-se]. É preferível depositá-la numa zona que tenha um fungo capaz de o degradar do que num sítio onde isso não existe."

 

Em laboratório, a equipa liderada por Teresa Santos começou por usar “água do mar sintética”, na qual colocou os fungos, microplásticos e "pouco alimento para os fungos": estes, assim, optaram por se alimentar das partículas poluentes. Após ensaios realizados de sete em sete dias, constataram que “à medida que a quantidade de fungos aumentava a de plásticos diminuía”. Numa segunda fase, os testes passaram para aquários, numa escala maior, e, no futuro, o ideal seria criar uma “espécie de estação de tratamento, em Aveiro”, para simular o ambiente real.

 

A poluição dos oceanos por microplásticos “é um problema muito grande e muito complicado de ser resolvido”. A ciência, acredita Teresa Santos, “ainda não consegue dar a resposta” necessária à sua resolução. No início de Maio foi publicado um estudo que confirmou a contaminação com microplásticos em sal de mesa vendido em oito países, incluindo Portugal.

 

Desenvolvido no âmbito da disciplina de projecto do terceiro ano da licenciatura em Biotecnologia da UA, a investigação resulta do trabalho de Ana Paço, João Costa, Armando Duarte, Cátia Duarte, Patrícia Santos, Maria Eduarda Pereira, Ana Cristina Freitas, Rute Pereira, Ana Bastos e Ana Silva, em parceria com as universidades do Porto e Católica Portuguesa. Financiado pelo projecto submetido por Teresa Santos à Fundação para a Ciência e Tecnologia, no valor de 50 mil euros, foi distinguido pelo editor da Science of the Total Environment “como um verdadeiramente novo campo de investigação”.

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