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Crónica

As alterações climáticas são um tópico assim tão urgente? Sim.

As alterações climáticas fazem parte do problema da fome, da segurança mundial e da economia, o que implica serem um problema humanitário. Combater problemas humanitários sem considerar o clima não vai complicar processos, vai impedir soluções

Texto de Filipe Lisboa • 29/05/2017 - 17:24

Filipe vive entre Lisboa e Helsínquia, doutorando-se em alterações climáticas. Trabalha em Observação da Terra

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Serão as alterações climáticas um tópico tão urgente? A fome mundial não está resolvida, há pessoas deslocadas, as epidemias matam — e muito, especialmente em países sem redes de saneamento ou hospitais dignos do século XXI. Podemos falar em alterações climáticas quando, no Gana, há hospitais que sem geradores não têm electricidade?

 

Foram estes os argumentos de um padre respeitável numa discussão que tivemos, noite dentro. Respeitável não por ele ser padre, mas pela nossa amizade e por conhecer o seu caminho; feito de missões humanitárias em Madagáscar, Quénia, e cenários da personagem de Javier Bardem no filme A Última Fronteira. Perante tamanho sofrimento, porquê o sururu verde? Na altura, o tema não tinha passado para os discursos papais. Estávamos na era pré-Papa Francisco mas o quinto relatório do Painel Internacional para as Alterações Climáticas acabara de compilar consensos científicos, atribuindo à actividade humana o aumento da temperatura global desde a Revolução Industrial. Em paralelo, a Agência Internacional de Energia mostrou que mil milhões de pessoas ainda não têm acesso à electricidade e três mil milhões cozinham rudimentarmente, implicando graves problemas de saúde. Nos últimos anos, a humanidade assistiu à maior crise de refugiados desde a Segunda Guerra Mundial e 2016 foi o ano que mais matou migrantes desesperados. Não é só o padre: em My World, das Nações Unidas, as alterações climáticas aparecem no fim da tabela das angústias humanas. Quer-se educação, cuidados de saúde, oportunidades de trabalho...

 

A resposta, a solução, é desistir da dicotomia do assunto mesmo que as conversas de café sobre as alterações climáticas não sejam fáceis. Os processos climáticos são complexos: os oceanos absorvem calor adicional, devolvendo para a atmosfera quantidades de energia brutais que alimentam furacões cada vez mais destrutivos. Um cientista climático almeja que se diga: é uma questão de sobrevivência. Mas não há como escapar: enquanto humanos, preocupamo-nos com o imediato e perigos palpáveis. O aumento global da temperatura é um inimigo discreto e a pior parte está ainda por vir. Será?

 

Tuvalu é um paraíso insular, pouco acima do nível do mar. O país pede que as alterações climáticas sejam razão para asilo. E mesmo que se se tapassem chaminés em uníssono, o mar continuará a subir — tal significa que os refugiados climáticos não são um “se” mas um “quando”. Depois, o clima mais quente é propício à reprodução de mosquitos, favorecendo a transmissão de doenças como a malária. Chegará ela a Portugal na força de um Verão? Actualmente, por ano, milhões de pessoas são deslocadas devido a eventos extremos do clima. Continuando as emissões, teremos furacões dez vezes mais frequentes. E se pensarmos que os países desenvolvidos estão imunes a estes problemas, na Austrália, a Seca do Milénio foi exacerbada pelas alterações climáticas.

 

As alterações climáticas fazem parte do problema da fome, da segurança mundial e da economia, o que implica serem um problema humanitário. Combater problemas humanitários sem considerar o clima não vai complicar processos, vai impedir soluções.

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