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Crónica

Experiências de quase-morte nas estradas portuguesas

Quando TODOS os condutores — especialmente os culpados de atropelamentos — forem obrigados a ter aulas de bicicleta nas estradas, para perceberem o que é estar do outro lado, talvez as coisas mudem

Texto de Hugo Filipe Lopes • 10/05/2017 - 17:15

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Embora hoje em dia sejam essas as principais formas de ter uma experiência de quase-morte, nunca estive numa cama de hospital com uma doença moribunda nem nunca combati em nenhuma guerra. No entanto, já a tive por duas vezes, simplesmente por andar de bicicleta todos os dias pelas estradas deste país.

 

Para quem não o faz poderá parecer uma redundância, mas depois de ser atropelado duas vezes e ter sobrevivido por pura sorte, sem mazelas de maior, talvez fosse altura de começar a ter juízo e encostar a bicicleta. Ou então pensar em percursos alternativos, se bem que o que acontece numa estrada movimentada pode facilmente acontecer numa estrada pouco frequentada.

 

Já sabemos que os condutores de bicicletas não são perfeitos e também desrespeitam as regras de trânsito, mas não foi o caso nas situações em que fui vítima de atropelamento. E mesmo quando isso acontece, o elo mais fraco é quem segue a pedais com o corpo desprotegido. Ao longo destes anos já ouvi de tudo, desde um condutor que me fez uma razia a gritar que não podia ir no meio da faixa (isto quando havia duas), chegando a parar o carro para me confrontar fisicamente, até sofrer tentativas de abalroamento por parte de camiões, carros e autocarros. Há claramente uma inexplicável raiva surda da parte de quem vai atrás do volante em Portugal. Já passei situações de colisões eminentes mais vezes do que aquelas de que gostaria de me lembrar e a minha retina ainda conserva a memória dos dois atropelamentos que sofri. Dizem-me que sou maluco, como me dizem que a culpa é minha porque vou por esta ou por aquela estrada, ou porque as estradas não foram feitas a pensar em nós ou por outro motivo qualquer.

 

No meio de tudo isto, a polícia continua a agir como se os ciclistas urbanos fossem um incómodo quando circulam na vida pública e continuam a faltar agentes à paisana a circular de bicicleta para perceberem efectivamente o que é o quotidiano de quem assim se desloca. Pouco importa se é em Lisboa, no Algarve ou no Norte, as situações são iguais e os riscos os mesmos.

 

Provavelmente têm razão e sou louco por insistir em viver da mesma forma, em vez de me reduzir ao medo de ser atropelado novamente. Depois do atropelamento mais recente, senti um misto de medo e indiferença de cada vez que um carro passava por mim. E isso é o mais grave, que por mais razias, atropelamentos, injúrias e atentados me façam, praticamente já não me afectam, não depois de tantos anos. É como se desse por garantido que, mais dia menos dia, vai acontecer outra vez. Curiosamente escrevo isto 24 horas depois do campeão Chris Froome ter, também ele, sido atropelado enquanto pedalava numa estrada.

 

Quando TODOS os condutores — especialmente os culpados de atropelamentos — forem obrigados a ter aulas de bicicleta nas estradas, para perceberem o que é estar do outro lado, talvez as coisas mudem. Até lá, andar pelas estradas portuguesas, seja a pé, de carro, de bicicleta, ou de carroça, continua a ser a mesma guerra de sempre, com as vítimas que conhecemos.

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