Fernando Veludo/ NFactos

A 2ª mão é a 1ª

Os acessórios da Cláudia já foram sacos de cimento ou de ração

O "vício pelo papel" levou Cláudia Alemão a criar a Bicla, uma marca que cria carteiras, sacos, estojos bolsas para óculos e alforges de bicicletas a partir de materiais improváveis

Texto de Mariana Correia Pinto • 21/04/2014 - 18:10

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Foram os Açores que mudaram a vida dela — e talvez por isso Cláudia Alemão deseje tanto voltar. Antes da partida para a ilha de São Jorge, a mãe empurrou uma máquina de costura para dentro da mala de viagem: achava que aquele objecto podia fazer a diferença no percurso da filha. E fez. Com “muito tempo para pensar e criar”, a portuense deu início à Bicla, uma marca de carteiras e outros objectos feitos a partir de sacos de cimento e de ração.

 

Tudo começou no “vício pelo papel”: onde quer que vá, a primeira coisa que Cláudia recolhe é esse material. “A minha casa está cheia de papel de todos os sítios que visito, ando sempre em busca de novas coisas.”

 

O papel dos sacos de cimento — que é geralmente deitado ao lixo porque é tóxico se não for bem lavado — sempre foi algo que a fascinou: “Havia muito na ilha onde estava e então decidi apostar nele. Ia às obras e pedia os sacos. Ao fim de algum tempo algumas pessoas já os guardavam para me dar”, recordou.

 

Daí à criação das primeiras peças, há já três anos, foi um instante: “Fiz um saco com alças, porta-moedas, que são os ‘best sellers’ agora, estojos, bolsas para óculos, alforges para bicicletas”. Fez várias peças, não só em sacos de cimento, mas também em sacos de ração de vacas, material fácil de encontrar na ilha, e, mais tarde, em sacos de ração de cão.

 

Quando os amigos viram as criações não hesitaram no conselho: mas por que razão não apostava numa marca e começava a vender os seus artigos?

 

A Bicla não enriquece Cláudia, mas é uma aproximação a uma “utopia de vida” que gostava de ter — uma vida em que seja “praticamente auto-suficiente”. A consciência ambiental tem-na desde que se lembra de ser gente, mas o facto de trabalhar na indústria têxtil há alguns anos intensifica-a.

 

Um desafio chamado reciclar

É também por ela que faz quase toda a roupa que usa, anda sempre de bicicleta (daí o nome da marca) e leva a reciclagem e o "upcycling" muito a sério. “Foi sempre uma coisa que gostei. Não só por altruísmo, mas porque realmente acho que às vezes o interessante é fazer algo com coisas que mais ninguém quer. É um desafio.”

 

Na Coração Alecrim e na Magasin no Centro Comercial Bombarda, no Porto, na Anthrop, em Coimbra, e na Objectos Misturados, em Viana do Castelo, é possível encontrar as peças desta portuense licenciada em Arqueologia. Mas online, a partir da página do Facebook, é também possível fazer encomendas para todo o país.

 

Além das peças-acessórios, cujos preços variam entre os 8 e os 25 euros, Cláudia apostou também na criação de cadernos (a paixão pelo papel estava mesmo a pedir!) e de roupa. E o vestuário — "tops", camisas e camisolas, tudo numa estética japonesa — é um dos pedidos mais frequentes.

 

A organização de "workshops" — de técnicas de impressão, de coser e origami — está também nos planos de Cláudia Alemão, que acumula com este projecto e um emprego na área têxtil a tempo inteiro um outro projecto chamado Picnics no Parque, “pequenos almoços do século XIX em jardins do Porto”.

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